
Chegado o Halloween, junto com as tradicionais festas, pipocam os artigos onde se condena a festa americana, comercial, imposta a nossos filhos, que tortura e apequena nossa cultura pátria. A identidade nacional teria que ser defendida contra tamanho absurdo, e deveríamos priorizar as festas tipicamente brasileiras.
Festas tipicamente brasileiras?
Carnaval, Natal (juntemos os dois e teremos… Carnatal?) e trocentas outras festividades que parem a “cara do nosso país” tem origens bem diversas, e muitas vezes em além mar. Incorporamos, ao longo dos séculos, festas e eventos tipicamente europeus, africanos e asiáticos, religiosos ou pagãos, os misturamos um pouco e demos-lhes uns matizes diferenciados, os transformando em “tipicamente brasileiros”.
Claro que não tenho autoridade profissional para falar do assunto, mas no meu esforço para dar pitacos em tudo (algo que talvez seja mais tipicamente brasileiro que qualquer outra coisa), compreendo que nossa cultura jamais foi fechada (como advogam alguns nacionalistas com vozes altas e textos em caixa alta), tampouco foi fruto de um processo mecânico de “cópia e cola”.
Absorvemos bastante de quem aqui veio procurar abrigo e futuro, modificamos igualmente muito. Somos uma nação de retalhos, muitos dos quais “made in qualquer lugar no mundo”. Claro que temos que definir um rosto nacional, mas esse rosto nacional não é, nem nunca foi, desprovido de olhos para enxergar os demais.
O que diferencia o Halloween destas festas “tipicamente nacionais” é que sua absorção pela sociedade brasileira é mais recente e ainda a vemos acontecer. Com o tempo, será moldada a nosso jeito. E, desde logo, já tem características excessivamente comerciais, o que se verifica (infelizmente? Talvez) em praticamente todas as datas destacadas.
Mesmo em seus locais de origem não se leva mais a sério o Dia das Bruxas como evento para proteger as crianças nas vésperas de todos os santos, disfarçando-as de demônios. Hoje, só temos crianças fantasiadas de seus desenhos favoritos (ou servindo de projeção dos desejos dos pais – o normal, o normal…) e adultos virando crianças novamente, com fantasias de seus desenhos (filmes, séries, qualquer coisa…) preferidos. Mas com direito a álcool. Muito álcool.
O Halloween é mais uma oportunidade de se divertir. Criticável como qualquer coisa que exista, principalmente quando hajam excessos, mas que não merece ser levado tão a sério.




